Do Nelore ao Double Decker

Virginia Costa foi do Nelore ao Double Decker. O que quero dizer com isso?  Quem é Virginia Costa? Quero dizer que Virginia Costa é uma brasileira, artista plástica, bisneta, neta, filha de fazendeiros que trouxeram o boi Nelore da Índia para o Brasil. O double decker é aquele ônibus vermelho, de dois andares, londrino.
Ao contrário da maioria dos artistas plásticos que dizem ter começado a desenhar, a pintar, quando criança, Virginia Costa começou adulta, há cinco anos. Tomou gosto pela coisa ao ver uma amiga da filha, uma jovem alemã, artista plástica, hospedada em sua casa, desenhar e pintar, de manhã, de tarde e de noite.
Inspirada pela alemanzinha, que fotografava, desenhava e pintava, começou. Não parou mais.

Sem se dar conta fez o que vários artistas norte-americanos fizeram a partir de 1965. Foi nessa década que nasceu na América o Hiper-realismo. Sem a foto a pintura hiper-realista não existiria.
Em 1973, em New York, no Soho, na Prince Street, na Louis Meisel gallery, vi uma exposição de hiper-realistas. Encomendada pelo excêntrico milionário Howard Hughes, dono da TWA e de empresas petrolíferas. Aquele do filme The Aviator, com Leonardo Di Caprio. A mostra reunia os mais importantes hiper-realistas.
A única exigência que Hughes fez foi que toda obra deveria ter um avião. Todas tinham.
Fiquei sabendo desse detalhe pelo advogado de Hughes, em encontro que tivemos no escritório dele no Pan American Building. Meisel depois contou a reação dos artistas ao pedido.
Ao ver agora as pequenas pinturas, os mini-quadros de 20 por 30 centímetros, as paisagens urbanas de Londres, de Virginia Costa, imagens daquela exposição novaiorquina me vieram à mente.
Há entre Virginia Costa e os hiper-realistas norte-americanos pontos em comum. Especialmente com aqueles que encontram na paisagem urbana, nos restaurantes, nos bares, nas vitrines, nos postos de gasolina, motivação para pintar.

Vivendo no interior de São Paulo, em São José dos Campos, Virginia Costa está refazendo em seu ateliê o caminho que Richard Estes, David Cone e outros percorreram e continuam a percorrer.
No Brasil foram raros os artistas que enveredaram por essa senda. Difícil. Trabalhosa. Árdua. João Calixto, já falecido, foi um deles.

Agora, sem fanfarras e rojões, Virginia Costa chega timidamente a São Paulo com sua pintura minuciosa, detalhista, virtuosa. Encontrar essa pintura hoje é uma alegria única. É bom sentí-la.
Em suas viagens ao Reino Unido para visitar a filha que há anos mora em Londres, fotografou lojas, pubs, bares, lojas, restaurantes, feiras livres, mercados e os celebres táxis pretos. Os ônibus de dois andares e as tradicionais cabines telefônicas vermelhas.

Em uma foto inspirada e incomum conseguiu reunir estes três símbolos londrinos em uma só tomada. De dentro do double decker, através da porta, captou uma cabina telefônica e um táxi.
A pintura que abre este artigo está em Londres. Ainda este ano, quando o London’s Transport Museum reabrir, fará parte de seu acervo.

Para quem começou ontem, Virginia Costa, graças à determinação e trabalho, conseguiu ter uma pintura em um museu londrino. Coisa rara.
Sorte? Não!!! Talento.


São Paulo 8 de julho de 2007 20:00 horas

Carlos von Schmidt
Curador e Crítico de Arte


Virgina Costa é representada em São Paulo pela novaAndrégaleria
Rua Estados Unidos 2280 tel.: 3081-6664
www.virginiacosta.com